SOBRE ABRAÇO PARTIDO:
Dentro deste mundo espesso, melancólico e cheio de nostalgias em que você entrará - agora sim -, cabe muito bem aquela impostação de voz da renomada escritora já citada neste blog, feita, desta vez, com recheio plausível, especialmente adaptado para a ocasião: quem nunca teve uma desavença familiar “que atire a primeira pedra.”
Em minhas crônicas, atrevo-me, quase sempre, a falar sobre assuntos que incomodam, que machucam, sobre aquelas coisas mais inconfessáveis que doem quando vêm à tona. Mas eu as encaro com naturalidade, visto que um escritor, para ser autêntico no que diz e no que faz, não pode fugir de si mesmo.
A diferença entre mim e a maioria das pessoas é que não enxergo barreiras para ser eu mesma vinte e quatro horas por dia, dizendo as coisas que realmente penso, enquanto a maioria esconde os seus dramas familiares debaixo do tapete com medo de expor-se, por querer parecer perfeita aos olhos de outrem.
Assunto mais delicado ainda, quando se trata de mãe, aquele ser inatingível que, caso a sua postura e a sua conduta são postas em questão, em última instância, ela está sempre certa, ela sempre tem razão, posto que, nos lares conservadores, já nasceu sagrada. Mas o amor, o carinho e o respeito que eu sinto pela minha, não podem impedir-me de expressar artisticamente sobre tudo o que ela representou para mim, positiva e negativamente, vivendo numa época e num lugarejo muito restrito e espiada pela afiada língua familiar.
No decorrer do texto, perceberemos que, às vezes, o que magoa uma criança é justamente aquilo que os pais jamais presumiriam como importante (o que não é muito diferente na vida adulta também, visto que os pais, por mais que neguem, têm as suas preferências por determinados filhos).
Há quase quarenta anos, por uma questão cultural, as mães sertanejas escondiam a sua gravidez dos seus filhos, pois tinham pudor de falar-lhes a respeito. E quando o filho caçula deparava-se com a surpresa, ouvindo o bebê a chorar no quarto após o parto, tinha um choque. O que nem sempre significava um choque ruim.
...Fiquei muito indecisa sobre aquele serzinho vivo, sobre aquela frágil bonequinha de carne que mal se mexia vestida de múmia devido às faixas, atrevidamente colocada por sobre o meu berço, que chegara sem avisar e que muito em breve se apossaria das tetas da minha mãe e da sua vida.
...Os paviozinhos acesos no óleo por sete dias para a criança ainda pagã não ser rondada pelo mal enquanto não fosse batizada... a maletinha da parteira, o aguardar ansioso na ampla cozinha de tábuas na casa da vovó por todos à espera da“novidade” – jamais sairão da minha memória.
Mamãe, a mulher que hoje há em mim, já conseguiu superar a mágoa do silêncio sobre a chegada da cegonha. Mas a criança rebelde que se sentiu abandonada, ainda não. Mamãe viaje comigo agora no nosso caloroso e apertado... Abraço Partido.
ABRAÇO PARTIDO
Lembra-te, mamãe, de quando eras só minha, e eu não precisava te dividir com as outras duas intrusas?
-Arredia em teu colo quente, fazendo manha de menina única, choramingando, te imitava no chiado ruminado nas contas do rosário beato, num pranto choroso que só você sabia interpretar, querida mamãe. ...Os teus cabelos macios por sobre os ombros, tua voz, tuas cantigas de ninar, todo o teu harmonioso conjunto de bem querer de mãe, cheirando a calmante de erva-cidreira, embalavam-me num sono profundo que eu ia lá longe ter com os anjos dos púlpitos..., para depois voltar mansinha de uma tarde de sono. E eu só despertava depois da chuva... quando já sacudias o berço para o banho e a papa.
Ainda me recordo como se fosse hoje, como ficavas nervosa quando perdias a mão do sal com o de comer dos camaradas, em pleno sol ardido de agosto, colheita adentro.
Lembra-te daquele nosso segredo, mamãe? Tal como te prometi, nunca o contarei. Só eu e Deus sabemos o quanto ficaste esquisita na cadeira esdrúxula do dentista, com o dentinho da frente quebrado, gesticulando em vão... num ah, ah... abafado.
...Tudo tão presente em minha mente, como o cheiro açucarado da laranja-da-terra fumegante sobre as brasas alaranjadas que lambiam a escuridão lá fora pelas frestas sem mata-juntas: ...Nho João, sinhá Tana, a casa pobre, os agregados, o teu costume feio de deixar o machado lascado no pé da soleira..., os ruminantes - no sol frio da tarde invernal, a “vasca” cheia de roupa suja de molho quase encoberta pelo pudor das ramas de chuchu, debruçadas.
À sorrelfa, vez em quando, dava-me palmadas para catequisar-me. Como era eu de miolinho leviano para o perigo, apartavas -me das facas, das enxadas afiadas, dos touros de chifres pontudos, das bravas galinhas chocas, das porcas paridas de novo, das perigosas cisternas que moravam nos fundos das casas. Quando não, dos pregos, das torporosas latas enferrujadas que traziam cortes que muito latejavam à noite e despertavam o sombrio medo do tétano.
Interesseira em obter atenção exclusiva, eu transformava tudo em causa própria. Transgressora natural das regras, sempre que podia, desobedecia-te. Gostava de medir o teu poder e a tua influência sobre as coisas, sobre os outros, e, principalmente, sobre mim mesma.
Aos domingos, dizias que tínhamos de cumprir uma missão: e, em comboio, sob o cajado patriarcal, lá íamos nós ensolarados em fila indiana pelos trilhozinhos... pelas estradas estreitas e primitivas. E eu, munida de meus vestidinhos bordados, ia lânguida, morosa, precoce e esguia, com uma mão atarracada em teu mindinho e com a outra segurando firme o tostão amarrado na ponta do lenço suado para a esmola; conscienciosa, prestava atenção aos ensinamentos.
A fé partilhada, os costumes passados de boca em boca, o nosso quase dialeto..., você penteando os meus cabelos embaraçados no roto sofá de tardinha... e eis que de chofre, da noite para o dia, sem ao menos ter tido o vislumbre da confidência, do derradeiro recurso do aviso prévio materno que tanto prepara o coraçãozinho infantil, a vicissitude de surgir, no mesmo velho berço que outrora fora meu, a “novidade”, aquela que definitivamente representaria o último lastro da minha infância...
De tanto ir e vir a parteira - carregada de filhos, tu não me davas trégua, mamãe... E como me purgasse a consciência abandonar-te, como bem o sabes - aos nove anos tornei-me a segunda mãe da minha irmã do meio, e aos dez, da caçula, não fugindo assim das leis da tradição familiar que me ceifou o colo e o tempo para brincar.
Depois de me sentir entregue à própria sorte, superada a odienta certeza do trono perdido, com o meu coração claramente posto à prova, as minhas irmãs se tornarem as minhas melhores amigas. Elas se tornaram, para mim, as ovelhinhas mais queridas deste mundo e amei-as profundamente com toda a força da minha existência.
Mas, mamãe, nossas almas não foram ofuscadas pela metáfora do mal do berço, pela cegonha, pela ingratidão daquele coração insensato, pelo serpenteamento de najas que volta e meia rondam a paz das relações, pelo ranço da usura; pois, sobre este último, bem se sabe da eterna sintonia que há entre mães e filhos, e da obsessão por acharem-se próximos, por tocarem-se com palavras e gestos, mesmo que pautados por uma existência de conflitos. Creio que também não pelas intrigas familiares: as mães já parem avisadas pelo o seu extinto, e pelas suas próprias mães, de que os seus sempre se digladiarão entre si, pois, além da grande diversidade de idéias que paira sobre cada cabeça e das particularidades inerentes a cada um, cada qual vê refletido no outro, o empecilho da imortalidade no coração da mãe, já que enxergam inconscientemente no irmão de sangue, o sonho narciso desfeito de ser único. E como não se perdoam mutuamente, tecem-se comentários ácidos a respeito uns dos outros, na ingênua esperança de parecer exclusivamente perfeitos aos olhos dela. E a mãe precisa munir-se de muita astúcia para não ser usada nas desavenças. Por isso, a mãe que realmente tem bom senso passa a vida exercitando o equilíbrio e a paciência, para agir com imparcialidade nas intrigas familiares, sem nunca dar completa razão a nenhuma das partes, embora, desde cedo, saiba muito bem quem geralmente a tenha. O que não deixa de frustrar os filhos, que, se vêem exclusivos nas virtudes, logo, querendo a mãe só para si.
Os filhos, às vezes, ficam entristecidos, desapontados pela falta de coragem e de enfrentamento por parte da mãe diante das feridas abertas pelos seus. Eles ficam decepcionados com a sua aparente omissão, com a sua ausência de posicionamento, pelo fato de ela não ter coragem de pôr o dedo na ferida dos que se prevalecem da fragilidade e da educação dos mais sensíveis, gritando mais alto, impondo a sua opinião à força com colocações ríspidas, visto que a palavra final da mãe serve justamente para deter os exageros dos insensatos que se consideram donos da verdade. E, muitas vezes, na intenção de não querer desavenças, a desunião familiar, de acalmar os ânimos, ela foge do diálogo urdido, encerrando-o entre as partes, permitindo, assim, que se crie uma ferida maior: a mágoa - quando tudo o que aquele que está se sentindo injustiçado esperava ouvir dela seria exatamente o contrário do silêncio.
Nós precisamos, almejamos, necessitamos ouvir o bater do martelo das nossas mães quando nos sentimos magoados, em franca desvantagem com relação aos nossos irmãos, porque possuímos sempre uma estúpida vontade de fazer justiça com as nossas próprias mãos. E, por ironia, nesses casos, enxergamos na figura da mãe uma extensão do nosso próprio corpo, uma leal advogada.
Quanto a nós, mamãe querida, tampouco fomos afastadas pelo tempo desgrenhado que corre veloz, pelos vãos dos nossos dedos esguios, pela distância que machuca e apaga as pegadas das lembranças, pelos teus limitados olhos de vidro que, hoje, tudo vêem, cautelosamente. Nós fomos, sim, separadas pelas palavras. Mas não pelas palavras duras pronunciadas, pelos espeloteamentos contidos nos gestos, pelas palavras nascidas do expressivo olhar subjetivo. Nós fomos separadas mais precisamente pelo silêncio das palavras, mamãe. A ausência de palavras... quando se faz urgente serem proferidas em favor de um coração aflito – doem mais do que o excesso de palavras estouvadas. A ausência de palavras... esta sim, representa o desamparo, a eterna e imperdoável solidão..., a verdadeira e profunda dor do abraço partido.
VERA FORNACIARI
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
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Um comentário:
Mamãe,
O seu abraço partido é de partir o coração!
Vai aqui uns versinhos que fiz pra você.
O amor vai e vem
Vou pôr meu velho amor no baú
Deixarei que o novo venha
Que pelo menos desse jeito
Eu seja feliz e que o antigo
Se enterre na areia
O meu amor vai e vem
Como se fosse uma onda amorosa
De ida e volta
Mário Sérgio F.Bernardes
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