segunda-feira, 23 de junho de 2008

Matéria veiculada no Jornal Correio de Uberlândia

A Editora Arx lança hoje, às 19h, na Livraria Siciliano o livro “Amoras, Cerejas, Morangos e...Sapatos Vermelhos”. A autora é Vera Fornaciari, uma paranaense radicada em Uberlândia que se apaixonou por Guimarães Rosa e que dedica boa parte de seu livro à cultura mineira.

É o caso da Oração do Sertanejo das Gerais, que ocupa boa parte do livro e resgata a linguagem dos sertanejos. “Morros, montanhas, salpicados de ipês e fuxicos nas corrutelas, onde as novidades chegam quão devagar, mas na medida certa das leras miúdas e de pudor, e a lama se empossa esbarreando tudo...”.

Vera Fornaciari escreve desde criança. Quando fez sua primeira redação na escola, a professora quis saber de onde ela copiara o texto. “Foi um custo convencê-la de que não era cópia, sempre gostei de escrever e isso inclusive causou a revolta de minha mãe, que preferia me ver aprendendo a bordar e a costurar”, diz a autora.

A escritora ficou 15 anos sem produzir porque preferiu dedicar-se integralmente ao marido e ao filho e retomou as letras no ano passado, quando então decidiu publicar sua obra. A mulher que é mãe cuidadosa e esposa dedicada também aparece no livro de forma marcante.

A crônica “Protesto Feminino” é quase um tratado, uma forma realista de a mulher ver o mundo. “Ser uma mulher madura é essencial para uma relação dar certo: os homens, estes são eternas crianças”, diz a autora. Nos relatos das mulheres de 40, quase cinqüentonas, Vera Fornaciari lembra que “elas (as mulheres) têm consciência de que as implicâncias são cancerígenas para o amor”.

A vida da menina que cresceu no sertão do Paraná passeia por “Amoras, Cerejas, Morangos e...Sapatos Vermelhos”, agora enriquecida pela vivência em Minas. “Aqui estou revivendo minha infância, faço uma deliciosa volta ao passado”, diz a autora, sempre apaixonada pelas coisas da roça.

Esse amor pelo campo aliado às imagens da infância é a marca do livro. Só mesmo um casamento perfeito entre a primeira idade e o amadurecer constante pode resultar em liberdades poéticas como o falar de jabuticabas lembrando as pequeninas saias das meninas nas escolas: “Mas sabe, jabuticabeira, quando tu já ias sem frutos com teus galhos quebrados, desbotados em tom cansado...volúvel, eu migrava para as plissadas saias de outras frutas da estação”.

Outras crônicas, de mulher madura que já sublimou coisas e que ainda ganha tantas outras percepções, trazem frases bem construídas e não menos poéticas: “Faço justiça: as mãos, os joelhos e os olhos deveriam ser vendidos avulsos nos magazines...tamanha falta nos fazem na velhice”.
Serviço: Lançamento do livro “Amoras, Cerejas, Morangos e...Sapatos vermelhos”, hoje 19h, na Livraria Siciliano, no Center Shopping.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Matéria sobre o livro "Amoras, cerejas, morangos e... sapatos vermelhos veiculada no influente jornal Folha de Londrina com cobertura em todo o Paraná

Paranaense à moda mineira
Escritora que também gosta de cozinhar, Vera Fornaciari descobriu uma receita infalível para criar crônicas deliciosas e está lançando seu primeiro livro

Divulgação

‘O projeto do livro surgiu recentemente, ao saber que pessoas desconhecidas publicavam meus textos na internet’, diz Vera



Um bom texto é aquele que provoca um eco no coração da gente; uma sensação deliciosa de saber ‘‘exatamente’’ do que o autor está falando. É uma identificação tão mágica que, às vezes, nos faz ‘‘lembrar’’ de coisas que nós nem vivemos! Você não precisa ter morado no sítio para sentir o cheiro das jabuticabeiras em flor descritas por Vera Fornaciari... quase dá para limpar o sumo das frutas escorrendo pelo queixo, tal como ela deve ter feito, quando menina. A primeira crônica de ‘‘Amoras, Cerejas, Morangos e... sapatos vermelhos’’ não só me levaram de volta à infância mas ainda me deram uma infância rural que eu nunca tive.

O livro é a estréia da escritora Vera Fornaciari, uma quase ‘‘vizinha’’ nossa. Essa paranaense de 46 anos, casada, mãe de um filho, que gosta de fazer doces, nasceu e cresceu em Pirapó, uma cidade pequenina pertinho de Maringá. São crônicas e poesias apresentadas em quatro partes – Infância, Maturidade, Velhice e Recordações. Este pode ser o primeiro livro de Vera mas a impressão é que ela passou a vida treinando para transformar sentimentos em palavras.

Escrever, ela escreve desde criança. Foram as palavras que ajudaram a menina que cresceu no sítio a se livrar de uma solidão que nem ela conseguia explicar. ‘‘Eu não me dava bem com os riscos dos bordados e com as agulhas da costura... e só gostava de ficar paradinha..., pensativa, escrevendo, quando não estava brincando no terreirão ou comendo frutas verdes no pomar. Isto gerava uma certa frustração familiar. Esse tipo de cobrança fez com que eu passasse parte da minha vida achando que havia algo errado comigo...’’, lembra.

No entanto, escrever para si e escrever profissionalmente, para os outros, são coisas diferentes. Vera conta que só descobriu que tinha talento para a coisa quando já estava na faculdade (ela está terminando Publicidade). ‘‘Depois de ficar quinze anos sem escrever uma única linha, escrevi a pedido, por acaso, a crônica ‘‘Amada Maturidade,’’ que fala sobre o charme e sobre a paz da mulher desta idade, e a expus numa feira de artes. O sucesso foi tanto que nunca mais consegui parar. Mas o projeto de publicar um livro surgiu recentemente, ao saber que pessoas desconhecidas publicavam meus textos na internet.’’

Lendo trechos das crônicas, é fácil entender por que as pessoas ‘‘garimpam’’ o trabalho de Vera e o espalham por aí. Ela descobriu um dos segredos da literatura, o de nos fazer embarcar em viagens de descobertas. Morando há onze anos em Uberaba, Minas Gerais, Vera se apaixonou pela cultura mineira e derrama esse amor no livro na forma de descrições deliciosas das paisagens, do povo, dos costumes e comidas.

‘‘Quando cheguei aqui, procurei vorazmente pela famosa ‘mineiridade’, mas não conseguia apreendê-la, materializá-la. Foi quando descobri que tinha de observar e matutar... porque, antes de tudo, ela era um estado de espírito. E assim o fiz. Dizem que deu certo. Também pudera, morando no sítio até a minha adolescência e enfrentando o cabo da enxada até os dezoito anos, ficou fácil comparar os modos de vida e o linguajar rural’’, reconhece.

Um outro tema recorrente no livro é a delicadeza da mulher – contida na sua força, escondida nas suas lágrimas, explosiva nos seus anseios. Vera garante que é feminina, não feminista. Uma das crônicas do livro, ‘‘Protesto Feminino’’, é um grito de indignação, que vai bem além dos sutiãs queimados em praça pública. ‘‘Hoje, a mulher que não trabalha fora é ignorada, ela não existe para a sociedade. E ela já assimilou culturalmente esta rejeição. Por outro lado, ao livrar-se do estigma da mulher ‘do lar’, ao ver o seu trabalho como ‘prioridade máxima’, os nossos lares estão vazios de presença de mãe e de esposa.’’

Esses dilemas, tão humanos, são a matéria-prima das crônicas de Vera. ‘‘Acho que devemos fazer uma profunda reflexão questionando-nos até que ponto realmente vale a pena ‘parecer’ moderna e poderosa aos olhos alheios e aos nossos próprios, ajudando freneticamente o marido a construir pequenos impérios, dando materialmente tudo de bom para os filhos e podendo comprar mais coisas no shopping quando o nosso velho coraçãozinho culpado ainda insiste em estar vazio’’, alerta.

A mulher que escreve também lê. ‘‘Não sou viciada em novidades literárias. Atualmente, estou lendo ou relendo: O Grande Mentecapto, Dom Casmurro, As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, Água Viva, Os Melhores Poemas de Cora Coralina.’’

E faz planos para escrever mais. À moda mineira, é verdade – devagarzinho, com calma, e sem ‘‘entregar o ouro’’: ‘‘Os romances, na minha opinião, tomam muito tempo e pedem alta concentração. Gosto de acordar de manhã e decidir na hora o que vou criar. Quando parei de escrever, durante muitos anos, acordava angustiada com o meu dom querendo se extravasar. Agora, estou me sentindo muito em paz e realizada escrevendo poesias e crônicas poéticas, e o depois só a Deus pertence’’.

Pois então, Deus queira que você continue escrevendo, Vera.
Phoenix Finardi
Reportagem Local



Fragmento de ‘‘Amoras, cerejas, morangos e... sapatos vermelhos’’

Fragmento de ‘‘Amoras, cerejas, morangos e... sapatos vermelhos’’
João, por aqui, tudo igual: as montanhas mineiras continuam parecendo um cobertor mal-estendido, algumas gentes continuam roubando no peso, há discórdia nas casas e falta pão. E o governo anda prometendo luz para todos. Ah, João, fico pensando que o sertão alumiado a eito com certeza já não seria o mesmo com a chegada da televisão que raleia as visitas às casas e uniformiza tudo e com a superficialidade da internet. Mas, como sabe, é pra frente que se anda... trago-lhe uma boa notícia, porém: às vezes, ainda se escuta onça miando no cerradão.

- Carta a Guimarães Rosa

É por causa dessa deselegância, por causa dessa mania que algumas mulheres têm de apontar os defeitos das outras para mostrarem-se ‘‘plenas’’, que aqui, em Minas Gerais, rola um ditado lamentável sobre o gênero: ‘‘Quando três mulheres estiverem reunidas, coitada da que sair primeiro...’’

- Protesto Feminino

sábado, 12 de abril de 2008

DISCURSO DO ORLEI MOREIRA NO CERIMONIAL DE VERA FORNACIARI QUANDO DO LANÇAMENTO DO SEU LIVRO: AMORAS, CEREJAS, MORANGOS E... SAPATOS VERMELHOS

Apresentar Vera Fornaciari é uma tarefa ao mesmo tempo simples quanto difícil. Fácil, se formos descrever uma pessoa de alma apaixonada pelas coisas simples, que se encanta com o canto dos pássaros e o rumorejar de um riacho em manhãs de fazendas.

E é um pouco difícil tentar retratar uma mulher que, sem qualquer feminismo, mas com muita feminilidade, defende as mulheres no seu sentido lato de ser, enquanto, ao mesmo tempo, sabe reconhecer o valor do homem enquanto companheiro e como o outro esteio da família.

Vera Fornaciari é esta paranaense que cativou os mineiros e que, em retribuição, dedica seu amor e uma amizade sincera a essa terra que a recebeu tão bem, a ela e sua família.

Foi uma reciprocidade de carinho tão grande que Vera resolveu colocar tudo isso em palavras que foram impressas e que estão imortalizadas neste “Amoras, cerejas, morangos e sapatos vermelhos”. Como os leitores vão notar, é uma obra impregnada de mineiridade, de coisas e expressões tão conhecidas e, ao mesmo tempo, quase esquecidas daqui das Minas Gerais; é recheado de uma saborosa coletânea sobre o mundo feminino, que descortina com rara sensibilidade as nuances do universo encantador de uma mulher.

Este mundo feminino que, para muitos, pode parecer um universo diferente, Vera o transforma e derruba mitos, numa leitura que flui gostosa, deixando cada página virada com sabor de quero mais.

quarta-feira, 12 de março de 2008

noite de autógrafos

NOITE DE AUTÓGRAFOS

Alguns autores já haviam me prevenido de que a noite de autógrafos para um artista assemelha-se a emoção do dia do seu casamento (mesmo sabendo que daí a uma semana, esquecido, provavelmente o seu livro pode ir parar no fundo da loja por causa das crescentes novidades). Mas eu vou mais longe: sexta-feira foi o dia mais bonito da minha vida. Não que casar-me ou tornar-me mãe não tenha sido significativo para mim. Foi. E muito. Afinal, sempre me fascinou a idéia de dedicar-me a algo. Mas nestes dois casos, ambos os episódios já eram aguardados com expectativas pelo meu coraçãozinho ansioso quando aconteceram. Já ver o meu trabalho fazer tanto sucesso no primeiro dia, não.
Naquela sexta vendi uma marca histórica de livros para uma pessoa totalmente desconhecida do meio e que mora no interior; formou-se uma fila enorme que não acabava nunca por quase quatro horas, e centenas de pessoas manifestaram o seu carinho por mim, me dizendo coisas lindas, abraçando-me, beijando-me, tirando fotos comigo. Elas nem sequer se importaram de ficar horas na fila a espera de um autógrafo.
O meu lançamento vem desmistificar a idéia antiga de que o Uberlandense não acolhe bem os seus escritores. Fui acolhida com respeito e devoção por muita gente que nunca havia me visto antes. E ter feito um trabalho sério por meses a fio junto a instituições respeitadas, ter uma editora forte e grandes meios de comunicação atrás de mim também fez toda a diferença.
Mas o grande segredo mesmo é acreditar. E eu sempre disse e repito: o meu livro é lindo!
...Achei tão bonito por parte dos meus colegas e dos meus professores “comprar” meu livro, e não simplesmente esperar por um brinde. E mais comovente ainda foi ver os meus vizinhos menos favorecidos fretarem vans para conseguir chegar ao local e finalmente poder me abraçar e comprar um livro meu. Houve até quem comprasse oito de uma só vez para presentear! Uma verdadeira demonstração de respeito à arte e ao artista que muitas vezes debruça-se por anos sobre a sua obra sem ter o mínimo reconhecimento por parte da sua comunidade quando o seu trabalho é posto à prova.
É muito gratificante a sensação de pertencer verdadeiramente a um lugar, de ser estimado e respeitado por ele. E hoje eu posso dizer de coração que pertenço a este lugar e as estas pessoas que me acolheram. E que um pedaço do meu coração nunca deixará de estar aqui. Mesmo que um dia os meus passos me levem.
Obrigada, Uberlândia!, você deu um show de elegância ao acolher com afetuosidade o meu Amoras, cerejas, Morangos e... sapatos vermelhos.

VERA FORNACIARI

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Convite

AMORAS, CEREJAS, MORANGOS E... SAPATOS VERMELHOS

Quero partilhar com o meu leitor uma grande alegria:
a REDE SICILIANO, tal como eu, também acreditou em meu
livro, apaixonando-se por ele. E como todo ser apaixonado,
cuidou da minha obra com o maior carinho, dispensando-lhe
um design moderno e arrojado da capa à diagramação, e
emprestando-lhe um nome que já é tradição no mercado editorial.

Em outras palavras, para alegria de uns e para surpresa de outros,
a partir do dia 7 de março de 2008, o livro AMORAS, CEREJAS, MORANGOS
E... SAPATOS VERMELHOS além de estar em todas as lojas da REDE SICILIANO,
estará também presente nas melhores livrarias do Brasil, tais como:
SARAIVA, FENAC, CULTURA, LEITURA, LIVRARIAS CURITIBA, LASELVA, TRAVESSA,
ARGUMENTO, PARALER, entre outras.

Ai, estou tão feliz!

Muito em breve postarei aqui o convite para a noite do lançamento que
acontecerá no dia 07 de março de 2008 (sexta-feira), das sete às dez
da noite na livraria siciliano do Center Shopping de Uberlândia.
Um novo tempo está começando. Que a leitura que os meus olhos fazem
do mundo consiga agregar valores. Assim como possíveis críticas!
Agora, com o meu coração muito, muito, feliz deixo para você a capa
do meu livro. Ela transmite bem o meu espírito sereno e sonhador.
Mas não se engane: atrás da leveza deste vestido vermelho se escondem
páginas muito profundas sobre a feminilidade e sobre a mineiridade.

VERA FORNACIARI

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

O Jogador

O JOGADOR


Um jogador nunca saberá ao certo o gosto que tem um diálogo desinteressado entre um homem e uma mulher, o fruir de uma amizade, um flerte, e, muito menos, a força e o encanto de um amor verdadeiro: como acomodou-se com a mediocridade do seu quinhão, agora, à espreita, silencioso confabula, espia, arma o bote contra a sua presa: atrevido deduz que com certeza ele a pegará na curva; tudo será apenas uma questão de tempo. Sem discernimento sobre as coisas da dor, o jogador subjuga, iguala, descompromete-se, nivela por baixo, atreve-se.
Ah, com certeza você se sentiria um idiota nas mãos de um jogador!
Um jogador manipula, apropria-se do pensar e do agir do outro com uma certa empatia, da forma que mais lhe convém. E, se possível, sofre por antecipação, porque, por antecipação, ele também tudo espera a seu favor..., julgando o caráter do outro sem nenhum critério ou esforço que requeira qualquer envolvimento emocional da sua parte, só a sua conveniência lógica: o jogador intui-se inteligente demais para manter um certo “intercâmbio” desinteressado com os outros pobres mortais. E é por isso que ele não faz confidências, não partilha, não comunga, a não ser com pessoas que vão de encontro aos seus interesses. Um jogador reluta sempre em revelar-se nas palavras, em “mostrar-se...” em seus sentimentos..., em confessar-se nos gestos, porque usa máscaras o tempo todo. Mas, em contrapartida, ele nunca conhecerá a chama da cumplicidade que brota de uma confidência espontânea.
O jogador é um ser extremamente solitário. Embora viva sempre rodeado de gente. E fale para muitas gentes...
Um jogador não tem alma. Logo, ele não possui um coração “de verdade...” para confessar-se... em seu amor..., em sua dor..., porque ele é impassível. Por isso, os jogadores jamais suspirarão ansiosos, jamais serão arrebatados pela adrenalina da paixão que nos faz perder o sono, andar perfumados e sorridentes na rua, e nascer de novo; eles jamais entenderão a questão do “corar-se,” jamais esperarão cartas sinceras...; os jogadores definitivamente não se entregarão, não sofrerão por amor..., porque, incrédulos, são vazios de corpo e alma, já que são pessoas “afetadas...”
Aos exímios jogadores, os meus pêsames!

VERA FORNACIARI

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

ANTÔNIO MARIA...,RUBEM BRAGA..., CHICO SÁ!

ANTÔNIO MARIA..., RUBEM BRAGA..., CHICO SÁ!



Não é feio dizer que não faz muito tempo que conheci a força do romantismo de Antônio Maria. Apaixonei-me. Perdidamente (também pudera: apaixonei-me até por “Bambi...”). Mas que mulher “normal” não ficaria lisonjeada com o seu “Café Com Leite?” Que mãe normal não se convalesceria diante da sua sofrida “Conversa de Pai e Filha? Não é nenhum mérito particular apaixonar-me por algo grandioso assim. Com certeza, todas as românticas do mundo, adeptas ao água-com-açúcar, como eu, o fizeram.
Mas só quem encontrou Rubem Braga distraída como eu em “Os Amantes,” para ser pega de surpresa com toda a intensidade de um texto sedutor. Profundo, Rubem gela até a alma. Cheguei a sentir a sua respiração ofegante naquele apartamento abafado, cuidando, amando, sofrendo, com toda a força do seu amor.
...Nos últimos dias, andei muito bem acompanhada lendo verdadeiras lições de sensibilidade e delicadeza, que, aliás, todos os homens deveriam ler. Principalmente se o Mestre for Chico Sá, dando uma aula magna sobre as peculiaridades da alma feminina em “Quando As Mulheres Acordam.”
Crônicas: subjetividades do cotidiano que transcendem e eternizam-se, quando de exímia excelência!

VERA FORNACIARI

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Capim Branco

Meus queridos:

Primeiramente quero desculpar-me pela ausência: estou na reta final do meu livro e do meu curso, imaginem a confusão.Bem, hoje vou deixar aqui um roteiro que fiz para o meu curso de publicidade, no qual o desafio era usar um anacoluto. Espero que gostem. Beijos. Não me abandonem... Vera Fornaciari.

PEÇA: VT Institucional 30”
CLIENTE: Consórcio Capim Branco
TÍTULO: Consórcio Capim Branco, preocupado com o meio ambiente.
Aluna: Vera Aparecida Fornaciari Bernardes
Comunicação Social- Propaganda e Publicidade
Obs- o desafio deste texto era usar um anacoluto

ÁUDIO VÍDEO

Narração masculina.
Trilha.

LOC:

Tão primordial quanto trazer aos olhos a benevolente luz; condições sendo criadas para que a vida continue a existir na terra.

LOC:

100 milhões de metros quadrados reflorestados com mata nativa.
50 espécies da fauna, devolvidas ao seu habitat natural.






LOC:

Consórcio Capim Branco : garantindo a perpetuação da espécie.


Em plano aberto, ao longe, em noite escura, mostra cena de mansão rural construída no meio da mata com apenas um claro de vela acesa dentro da casa. De repente, todas as luzes se acendem de uma vez só., mostrando os benefícios da luz.

Em plano médio mostra trabalhador plantando uma árvore. Take nas mãos do trabalhador colando a muda na cova. Ao fundo aparecem várias árvores plantadas, vários trabalhadores.

Mostra macaquinho fazendo gracinha na árvore. Take numa bela orquídea selvagem florida. Corta para cena aérea da área totalmente reflorestada.( Fazer a tomada com uma lente grande angular). Mostra as plantas típicas do cerrado com placas de identificação com seus respectivos nomes.
Mostra a diversa fauna existente, preservada na região. Mostrar takes de maior quantidade possível de animais.




Mostra uma família bonita com pai, mãe, e duas crianças debaixo de uma linda sombra fazendo pic-nic. Sobre a grama: uma toalha xadrez, vasilha de palha, sonhos, frutas, flores, suco de laranja.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

ORAÇÃO CONTRA O MAL BÍBLICO

ORAÇÃO CONTRA O MAL BÍBLICO
Para quando a inveja bater mais forte:

Ensina-me, Senhor, com tua infinita sabedoria, a dobrar os meus joelhos em sinal de humildade, para que eu possa compreender com resignação as fraquezas dos que me invejam, perseguindo-me, e a superá-las com toda a serenidade da minha alma. A inveja não é um mal do tempos modernos – ela é bíblica. Logo, um mal generalizado e incurável, presente no nefasto coração humano, como sendo resultado da ambição, e prima-irmã da frustração.
Ajude-me, Senhor, com tua bondade, aprender a perdoar de coração aos que tecem comentários maldosos sobre os feitos do meu trabalho limpo e desinteressado, que eles sequer conhecem bem para julgá-lo com sabedoria. Os meus feitos, não se tratam de pieguices, são humanidades: nesta vida, nem tudo se resume à alegria descompromissada do axé, à leveza artificial e mentirosa dos comerciais de shopping centers - embora a tendência do superficial mundo globalizado seja mesmo a de transformar tudo numa grande gargalhada -, inclusive, as trágicas questões socias.
Senhor, ensina-me a lidar com sabedoria com os ingratos, que, volúveis, têm memória curta e facilmente mudam de lado conforme o sabor da sua conveniência. Ajude-me a lidar com os dissimulados que me sorriem, mas que, pelas minhas costas, me blasfemam com comentários maldosos, machucando-me, só porque temem que eu cresça.
Faze com que entendam, Senhor, de que levar a cabo as minhas convicções, defendendo-as, não se trata de irreverência: uma pontinha de orgulho profissional faz parte do universo daqueles que acreditam na luz própria do seu trabalho, já que será justamente esta auto-confiança que determinará que tipo de profissional serei eu amanhã.
Ai, Senhor, mas livra-me, principalmente, do fantasma dos inseguros, que, sentindo-se diminuídos diante da capacidade do outros, tudo temem, enxergando ameaça nos gestos mais aleatórios.
Bem o sabes, senhor: o pouco que realizo é fruto exclusivo de minha dedicação, fazendo bom uso dos dons que me deste. E como tu mesmo pediste, em vez de enterrar o meu talento – mostrei-o! Ah, Senhor, que idéia mais infeliz foi a minha mostrá-lo...: mal sabia eu que tão logo uma estrela desponte no firmamento, sem querer, a pobre faz sombra a milhões de outras estrelas, que, ofuscadas, se arremessam furiosamente contra ela, munidas de extintores na mão, porque o seu brilho solitário contraria interesses e projetos de ambição.
Senhor, desde que nos abandonaste no Jardim do Éden, condenando-nos ao trabalho, o mundo virou essa luta cruel pela sobrevivência que é hoje, donde uns passam impiedosamente sobre os valores dos outros, na tentativa de sobressair.
Nós, Senhor, pessoas de bem, que não temos voz para nos defender porque por conveniência ninguém nos ouve, estamos terrivelmente sós neste Jardim..., cada qual padecendo dos caprichos da sua tal cadeia alimentar... Por isso, Senhor, é a ti que recorro, pedindo livramento dos que se perderam em seus sonhos e procuram desesperadamente repatriá-los às minhas custas: os pobres de espírito sempre acharão que a vida lhes deve algo, julgando-se, invariavelmente, no direito de querer as coisas só para si: farinha pouca, meu pirão primeiro.
Livrai-me também, Senhor, da fúria dos emergentes, do descaso dos que pobremente se apegam à sua fresca juventude e aos seus patéticos diplomas, dos que sofrem do mal crônico da falta de talento e de habilidades, tentando se impor a força.
Por incrível que pareça, Senhor, arbitrariamente, por mais que já tenham me prejudicado, esses, são os que realmente mais me ajudam a crescer, porque é para eles que eu sabiamente rezo todas as noites antes de dormir, pedindo que Deus os livre da inveja predadora!
Abençoai, Senhor, os que me admiram largamente ao ponto de me invejar, intencionando apagar prematuramente a luz do meu parco sucesso, na tentativa de abalar a minha auto-estima. Abençoai-os a fim de que, como eu, eles também consigam realizar-se em suas profissões e em seus projetos pessoais de felicidade, detendo-se neles com tamanho afinco, a ponto de, esclerosados de felicidade, esquecerem-se completamente do meu nome.
Senhor, tu que conheces o meu coração profundamente, bem o sabes que pouco sei e que pouco tenho. E que mau não sou. Por isso, eu te rogo que o pouco que possuo seja colocado em constante vigília e oração a favor, inclusive, daqueles que desejam o meu fracasso, a derrocada das minhas idéias e da minha cabeça gasta ( mas cheia de vontade juvenil de mudar o mundo); daqueles que invejam a paz da minha vida pobre, o achonchego da minha família pequena, mas, plena de amor..., a fim de que, como eu, eles também, como legítimos filhos de Deus, igualmente recebam graças.
Para que enfim, distraída de tantas perseguições, eu possa finalmente viver a minha vida e as minhas abstrações em paz, e usufruir sem mágoas daquilo que a mim por pequeno mérito tentas me conceder...
Louvado sejas. Que assim seja.

VERA FORNACIARI

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O germinar das palavras

DEDICATÓRIA

Dedico este texto a todos os que têm vontade de escrever, mas acham que não sabem fazê-lo. Sabem sim. É só soltar a mente, devagarinho, começar a ouvir o que o coração tem a dizer e não reprimir as idéias com pensamentos negativos ou se auto-censurar: a princípio, todas as idéias são boas, e devem ser ouvidas, consultadas pelo seu bom senso, e, anotadas.
No seletivo processo de criação, umas idéias florescem, outras, não. Tudo depende da confiança que depositamos nelas, e do grau de importância que atribuímos a elas dentro do cenário em que queremos inseri-las. Sem confiança, as palavras não vingam... perdendo a mágica de comunicar.
Porém, para poder escrever um texto razoavelmente bom, além de a princípio não desprezar nenhuma idéia que lhe venha à cabeça, é preciso deixar a preguiça de lado, pois, com certeza, você terá de refazê-lo muitas vezes, até que ele fique perfeito, aos seus olhos. Estando pronto, mostre-o a alguém que entende mais do assunto. Esse alguém, se tiver o mínimo de profissionalismo, com certeza, irá lhe apontar as diretrizes a ser seguidas e fazer observações que podem ser positivas ou negativas (a crítica faz parte). Só assim, com esse empenho todo, o seu texto terá chance de trazer-lhe orgulho e de correr mundo.
Escrever demanda coragem em todos os sentidos. Vamos tentar?

O GERMINAR DAS PALAVRAS

Antes de nascer no papel, antes mesmo de nascer na mente, um texto nasce primeiro sempre no coração. É lá, nas profundezas do coração, que, tímido, ele nasce sequeiro. Porque, se o coração não pedir, o cérebro não irá obedecer-lhe. E, abortadas, as palavras murcharão.
Desde que se firmou como fiapo de vida, ao não ser repudiado, o texto começa a ser regado, aguado, como as margaridas brancas do jardim... Devotando-lhe confiança, ainda que fragmentado, alimentado - o texto começa a emergir em forma de palavras, de idéias soltas, e passa a ser trazido maneirinho... maneirinho das nossas profundezas para a superfície rasa da mente, como se fosse ele folhas levinhas de angico, que, frágeis, nas divagações, facilmente se desagregam com o vento.
Aceito, o texto lapidado em forma de idéias volúveis, prepara-se para germinar, depois de hibernar na mente. Porque, quando o ambiente é propício, tudo ao seu redor conspira a favor de uma vida em gestação. E então, oxigenadas, as palavras começam a ganhar forma. E numa bela manhã de sol, finalmente, o texto nasce.
Começa, a partir daí, uma grande batalha pela sobrevivência das palavras, parecida com aquela que acontece com a corrida dos espermatozóides: as idéias borbulham, arranjam-se e desarranjam-se expressões, períodos, frases, sinônimos, numa luta constante, donde, excêntricas, todas as palavras e todas as idéias querem sobreviver, prevalecendo umas sobre as outras, embora nos obriguemos sempre a ferir o orgulho da grande maioria delas. Porque, um bom texto, para poder firmar-se em sua categoria, precisa ser, no mínimo, coerente. Logo, tal como na lei da fecundação por vias normais, via de regra, só uma idéia vence como estrela guia: a principal. O resto vira coadjuvante ou fica guardado no baú para outra oportunidade
Um bom texto costuma ser muito seletivo e muito ordeiro! E obedecendo a toda essa seleção natural, então..., numa bela manhã, o texto brota.
Aberto o artista à criação, as idéias vêm em relances, e vêm em repentes, em golinhos de lampejos estabelecidos pela memória e pela inspiração, como se fossem luminosos relâmpagos, reflexos entre o claro e o escuro, entre o consciente e o inconsciente... E, depois de muita dedicação, quando menos se espera, numa bela manhã de sol, o texto brota, tomando conta do papel e de você, como se fosse um filho!
O texto, antes mero embrião, agora cresce, toma forma e ganha vida própria, depois de ser lido, relido, remexido e alterado dezenas de vezes. O texto anda, corre, vibra, mexendo com todo o sistema nervoso do seu criador que, apaixonado por ele, fica em perene estado de alerta, porque tem consciência de que o amor o põe cego. Impossibilitado de enxergar os próprios defeitos do seu discurso interior, prudente, o autor cai na tentação de mostrá-lo a alguém, obrigatoriamente, com maior rigor crítico. ...E, se esse alguém também se apaixonar pelo seu amontoado de escritos, imediatamente, o combinado de palavras sai das cercanias do escritório, passa pelo jarro de cristal da sala, ganha a rua e passa a povoar as idéias de outrem. Andejo, o bom texto “fica falado,” empoeira-se de tanto bater perna, corre mundo passando de boca em boca. Ele perturba, arrepia, aguça os sentidos provocando frenesi... O bom texto ganha status de gente, e até de personalidade, e tem o poder de provocar as mais diversas reações. Longe do efêmero, o bom texto não cai de moda e consegue transpor as barreiras do tempo, eternizando-se na mente de quem o lê.
Pessoas queridas: salvo o brilho da leitura pessoal feita pelo olhar de cada um conforme a sua visão de mundo, porque visão é dom de Deus, e nem tudo na mente é agricultável de entendimento e de explicação lógica -, é o tamanho da nossa persistência e do apego às nossas idéias que determinará que tipo de texto será o nosso, que tipo de escritor seremos nós. Cultura é importante. Diploma acadêmico, necessário. Talento é imprescindível. Porém, sem empenho, os três quesitos acima perdem o devido valor. Porque um bom texto se faz principalmente com dedicação. E dedicação inclui desde refazê-lo inúmeras vezes a ler muito. Ao estar brincando com as palavras, quando você ponderar que o seu texto já está bom, refaça-o mais umas cem vezes... e quando você julgar que já leu muito, leia mais, muito mais. Mais ainda. Devore montanhas de livros como se eles fossem apetitosos pudins de leite condensado...!
Seja movidos pela necessidade, ou pela própria vontade de escrever, atentemo-nos sempre aos princípios básicos. Mas não sejamos escravos das regras a ponto de deixar que elas influam na qualidade criativa do nosso trabalho, agindo como agentes podadores: mergulhadas em verborragias, palavras boas podem virar um insuportável pântano catinguento. E, diferentemente a isto, longe de excessos, às vezes, um texto gigante pode ser formado apenas de uma só palavra. ...No entanto, há textos verborrágicos maravilhosos, e textos sintéticos que tudo dizem, e textos politicamente corretos do ponto de vista da coesão, da gramática e da ortografia que são uma verdadeira droga! E vice e versa! Embora essa questão de fazer ou não algo que se propõe a executar com perfeição esteja muito relacionada com a questão dos dons atribuídos a cada um – considero encorajador e verdadeiro afirmar que todos nós podemos escrever excelentes textos. O importante é dar o melhor de si. Afinal, quem foi mesmo o alienado que disse que somos obrigados a ser bons em tudo?
Quando se trata de sentir a hora certa de continuar exaustivamente a remexer no que escrevo, no meu caso, na minha tosca oficina particular, é quando, entusiasmada, já sinto vontade de colocar o meu nome embaixo dele, julgando-o já inteiramente concebido.
É nessa exata hora, em que já prevalece a minha percepção sobre o todo, mas que, se encontram ainda muitos pontos mal iluminados sobre o que escrevi, que procuro acender a luz vermelha do alerta sobre os pequenos detalhes. Atentar-se ao bom senso sem cair nas armadilhas da lassidão do ócio é uma forma de não pecar com o perigoso comodismo. Julgando o meu texto acabado, é chegado o momento de percorrer exaustivamente todo o trajeto da sua formação, verificando com cuidado se a minha inspiração e a minha transpiração realmente já se esgotaram. Não raras vezes, depois de assinar o meu nome precipitadamente num trabalho, eu ainda o remexo dúzias e dúzias de vezes.
...Se, por acaso, fossem indagados sobre o assunto em questão, que trata o tema central deste texto - estratégicos e interesseiros-, o Marketing e a Publicidade, respectivamente, nos passariam o sermão de que devemos ser perfeccionistas ao extremo quando se trata de confeccionar textos. Afinal, devemos fazer tudo para agradar em primeiro, aquele que será, quem sabe, o nosso futuro “cliente” potencial. Mas como sou da pá virada, eu diria apenas que devemos procurar fazer tudo perfeito para encantar primeiramente a nós mesmos, pois um texto que não consegue encantar a si próprio, não é digno de encantar a mais ninguém!

VERA FORNACIARI

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

O SENADO E O CORAÇÃO DE BOI

O SENADO E O CORAÇÃO DE BOI

Todos os anos, quando as vitrines ficam muito enfeitadas, lembrando-me que já é Natal, sou tomada por uma súbita melancolia. Não é porque as lojas ficam cheias de mercadorias e de gente, porque elas tocam aquelas sentimentais músicas natalinas, fazendo-me lembrar da minha família que mora longe.
Fico triste porque, nessa época, sempre me recordo daquela senhora, que, às vésperas do Natal, não tendo o que pôr à mesa, entrou naquele açougue pedindo por um coração de boi (no interior, onde muitos estabelecimentos ainda compram o tradicional “boi em pé, no olho,” longe das invenções exóticas dos grandes “chefs,” o coração de boi é uma opção desprezível, tanto, que, às vezes, não conseguindo livrar-se dele, os açougueiros usam-no para fazer lingüiça, por ser considerado duro e fibroso).
Aquela pobre senhora poderia ter pedido qualquer parte do boi, ah, mas um coração de boi, não! Um coração, com sua conhecida múltipla função, sempre comove... machucando a consciência da gente que é mãe, que conhece muito bem os desejos e sonhos dos nossos filhos voluntariosos!
O coração lembra aquela parte sensível do nosso corpo, tanto no sentido vital da vida, que é a da função de bombear o nosso sangue, quanto a de simbolizar subjetivamente os nossos sentimentos mais profundos. Por isso, foi doloroso imaginar a figura humilde, em casa pobre, partindo o coração e colocando-o para cozinhar na panela de pressão para amolecer, com todos os condimentos.
Sentimental, diante dos fatos novos que surgem no dia-a-dia, volta e meia, sou acometida por lembranças que me remetem à crueza do episódio do coração de boi. Esses dias mesmo, embora ainda não estejamos em plena véspera festiva, senti-me remexida com o artigo realista do Ruy Castro, cronista do Jornal Folha de São Paulo, no qual ele fez uma analogia dos homens encapuzados, que roubaram uma transportadora de valores, com a performance dos senadores que, protegidos pela lei, puderam votar igualmente escondidos atrás do toco, no novelístico episódio Renan Calheiros, livrando, dessa maneira, as suas próprias caras, para que os eleitores não pudessem dar nome aos bois, ao absolvê-lo. E, para finalizar o artigo com chave de ouro, Ruy comparou ainda o montante da “bolada” que envolveu ambas as “operações.”
É por demonstrações deprimentes como essas, que os miseráveis do nosso país continuam a passar fome, recorrendo, em datas extremas, ao modesto coração de boi, quando podem pagá-lo...
Mas, Senhores, eu, com o meu faro aguçado de mulher interiorana, trago-lhes notícias fresquinhas do sertão: Suas Excelências se enganaram. Aos poucos, com a democratização da mídia, o povo está aprendendo muito bem a enxergar quem é que está ficando com o dinheiro do seu tão sonhado peru natalino. Aliás, esta não é a primeira vez que o povo conhecera a face da violência imposta contra si mesmo. Para ficar apenas em um exemplo, de quatro em quatro anos, pelo menos, ele se sente seguramente violentado pela afronta à sua liberdade, representada pela coação do voto obrigatório que tem apenas um único propósito: levar a ignorância da pobreza às urnas, para que os abutres sejam favorecidos por ela. Nem que para isso seja necessário usar a truculência, valendo-se de fedorentos caminhões de bois para transportá-los naquela hora decisiva da onça beber água...
Fico pensando cá com meus botões: será que essa gente que rói e que articula nas sombras não tem medo do amanhã, daquele frio na espinha que dizem dar na hora da morte, momento crucial no qual você sabe que não poderá levar daqui nem a aliança que, às vezes, há anos mantém no dedo...? Oportunidade na qual você repensa toda a sua vida e não sabe o que tem do outro lado esperando por você, e olha para trás de si mesmo e tudo o que vê é um passado de omissão, de favorecimento pessoal e de burlação às leis, quando teve a oportunidade de escrever uma história de vida cheia de orgulho e de admiração, com resultados positivos para a nação que se perpetuariam para além dos horizontes dos seus filhos e netos? A rotina do nosso congresso me responde prontamente que não. A maioria dos nossos parlamentares se acham acima da lei, inclusive da divina.
Não é à toa que, metaforicamente falando, em toda boa piada sobre políticos, o cenário no qual eles se encontram é invariavelmente sempre o mesmo: o inferno.
Pelo jeito, além de pouco se importar com coisas mais profundas, essa gente, que tem o complexo de poder, nunca terá noção ainda do que realmente significa para uma mãe pôr à mesa rodeada de boquinhas famintas na noite do natal, apenas um coração de boi partido em quatro, sobre uma folha de bananeira, porque a maioria dela nunca sofreu. E quem já muito sofreu, pelo jeito, de tudo já se esqueceu, porque agora mudou de lado, e junto com a elite confabula em causa própria, pouco se importando se as crianças comem coração de boi, seios humanos cozidos ou palmas.
...E viva a CPMF!

VERA FORNACIARI

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Amoras, cerejas, morangos, e... sapatos vermelhos

AMORAS, CEREJAS, MORANGOS, E... SAPATOS VERMELHOS...

Sou a poeta do tempo do escuro, das horas escorridas nas talhas, das velas, das sombras deixadas pelo vácuo da luz pouca das lamparinas... Poeta da meia luz, que tudo esconde querendo desbravar-se por trás das finas cortinas, das meias palavras, iguais às contidas nas meias pretas que se fingem transparentes.
Sou solidão de mausoléu com suas escadas longas, com suas tábuas rangentes, com suas pesadas e amplas janelas norte, que dão para lugar nenhum. Um ser de mausoléu, desconhecedora das tantas que há em mim mesma, quando se trata de saber lidar com esta dor...
Sou uma porta entreaberta, uma dúvida, uma inspiração matutina que só consegue se expor quando o cachorro ladra no quintal com medo do clarão da lua. Daquelas, que, embora espontânea - reservada da euforia das palavras expressas com a desenvoltura do malogro do exibicionismo, e que, mesmo sendo amante das palavras, quando realmente precisa expressá-las, esquece-as todas, olvidada. Sou uma poeta sem o juízo da oratória - que os frios advogados se ocupem dos calorosos discursos prontos, dos debates, do artificial explicar do sentido das palavras ao som dos holofotes, não eu! - visto que sou flor trêmula de jardim humilde.
Deixo a razão para os loucos, que tudo sabem. Deixo-as para os lúcidos caçadores de notícias perdigueiros que perseguem os desmentidos, o rastro da verdade farejada que, aos poucos, se empluma, para pulverizá-la com megafone. É para os donos da verdade, e, conseqüentemente, para os excêntricos donos das palavras, que deixo o meu legado discursivo, o poder do meu batom vermelho, a poda, o meu quinhão de confronto, visto que sou contra a desordem das palavras, das acareações, dos ânimos exaltados, dos alardes, das dissonâncias, das múltiplas versões. Deixemos que as palavras se entendam por si, por meio dos gestos. Porque os gestos falam bem mais do que as palavras. Não grite: sou a poeta da paz contida no silêncio. E um poeta não se explica, se sente.
Sei que, tão logo alguém emerja, gostam prontamente os curiosos de medir até que ponto vai o conhecimento de outrem, o seu potencial acadêmico, o seu brilho artístico, a extensão da sua leitura, o seu poder de lidar com a fala, com a magia das palavras, com os segredos dos verbetes, e com as suas próprias verdades e mentiras. Mas é pesaroso para um poeta explicar-se, visto que ele próprio passa a vida se conhecendo. Deixo a glória da discursiva para os loucos. Não para mim, pobre criança que pouco sei de mim.
Sou a poeta do tempo antigo, do rosa envelhecido, do escuro, da carta perfumada escrita à luz de velas, da pétala de flor esquecida dentro do envelope. Sou a poeta do relento, da trempe, da chama que crepita na noite, da premonição contida no pio da coruja na cumeeira. Sou a poeta mensageira do romance, dos desejos recônditos, dos sonhos etéreos, da taça de vinho que, derramada, vasa. Mas sou também solidão e angústia quando o amor não está... E é por isso que, volta e meia, uso vestidos vermelhos... para encantar as estrelas.
Tudo tão suscetível, um pouco adiante do córrego do meio, próximo ao rio das almas onde moram os sentimentos mais profundos que entraram para nunca mais sair... Juntos, atravessamos o rio para nunca mais voltar: o que sempre esteve em mim, emergiu quando tudo ainda estava tão desfeito e, lamentavelmente, dissipou-se na sofreguidão da neve fria, devido à minha inaptidão à dor.
O bonde passou. A vida passou. As horas que fluem devagar. O áspero das “ruspiosas” urtigas que machucam. Ah, tanta coisa dói em mim! A minha segunda adolescência que floresce, a amarga incerteza do amanhã, o amor sepultado no silêncio, a distância que me separa do mundo, o desagrego, os meus passos paralisados que, incessantemente, querem me levar – a eterna menina que se perdeu no meio da nuvem de poeira sobre o carroção de bois.
Como invejo o tom das melancias, o sangue circunstancial das frutas que verte sem labor dos cítricos morangos, do vermelho tinto das cerejas, do borrado tingido das amoras! São todas nuances de um vermelho que fere as nossas bocas de mentira, enchendo-nos de fantasias. Ah, as fantasias, quebrando os paradigmas da acidez do amor com a doçura açucarada da ternura, trazendo-nos de volta a ilusão tragada.
...E é por isso que, volta e meia no “pomar...,” visto sapatos vermelhos..., para encantar passarinhos que moram dentro de mim mesma. Femininos..., inofensivos sapatos vermelhos..., vertidos das amoras..., dos morangos, das cerejas, que enchem a minha boca cítrica de beijos como se fossem uvas doces.
Sou um poeta nu, visto que um poeta indefeso não consegue mentir ao seu próprio coração. Um poeta sem discurso, sem retórica, sem platéia, sem oratória, sem berço – um poeta no prejuízo do silêncio delator, que vive invariavelmente do pensar das coisas que rumina, sendo que aqui, aqui dentro desta casa velha e triste que mora dentro de mim, somos sempre apenas eu e a insondável solidão dos mausoléus.

VERA FORNACIARI